Como estruturar o argumento da sua pesquisa utilizando o V de Gowin

A elaboração de projetos constitui o cotidiano do pesquisador em todas as ciências.

A escrita de um trabalho que responda uma questão e defenda um argumento é uma obrigatória para o recebimento do título de bacharel ou de licenciado.

Esta necessidade surgirá novamente em eventuais seleções de mestrado e doutorado.

E o tempo todo ao longo da vida acadêmica.

Mas estruturar sua pesquisa de modo que o argumento construído esteja bem “amarrado” e “conversando” com as outras partes do trabalho nem sempre é fácil.

Por isso apresentamos aqui uma ferramenta que te ajuda na hora de checar se a sua pesquisa está coerente.

É o V de Gowin ou V epistemológico.

Gowin considera que a investigação científica que leva à produção do conhecimento é um processo de geração de estruturas de significados.

O processo de pesquisa pode ser visto então como uma estrutura de significados.

E os elementos dessa estrutura são eventos, fatos e conceitos.

O que a pesquisa faz por meio de suas ações é estabelecer conexões específicas.

Entre um dado evento, os registros feitos deste evento, os julgamentos factuais derivados desses registros, os conceitos que focalizam as regularidades nos eventos e os sistemas conceituais utilizados para interpretar esses julgamentos a fim de se chegar à explanação do evento.

Criar essa estrutura de significados em uma certa investigação é ter feito uma pesquisa coerente.

O V de Gowin e o processo de produção do conhecimento

A análise do processo de produção do conhecimento proposta por Gowin partiu inicialmente de um conjunto de cinco questões:

  • Qual(is) a(s) questão(ões)-foco ou a questão básica de pesquisa?

    Qual é a questão foco do trabalho?

  • Quais os conceitos-chave?

    Qual a estrutura conceitual?

    Quais os conceitos-chave envolvidos no estudo?

  • Qual(is) o(s) método(s) usado(s) para responder a(s) questão(ões)-foco?

    Qual a sequência de passos?

  • Quais asserções de conhecimento?

    Qual o conhecimento produzido?

    Quais os resultados mais importantes do trabalho?

  • Quais as asserções de valor?

    Qual o valor do conhecimento produzido?

    Qual a significância dos resultados encontrados?

Este conjunto de questões constituiu uma espécie de “embrião” do diagrama V.

A forma de ‘V’ do diagrama é interessante na medida em que mostra a produção do conhecimento como um processo de interação entre um domínio teórico conceitual com um domínio de natureza metodológica.

Dando-se tal interação com vistas à respostas das questões formuladas envolvendo eventos ou objetos, para os quais os domínios convergem.

É importante observar no V sua capacidade de integrar sinteticamente os elementos envolvidos no processo de investigação.

Tal arranjo permite ao observador constatar as relações de interação e codeterminação entre tais elementos, esclarecendo o iniciante sobre essas relações.

O V aponta para o evento a ser estudado, sobre o qual a questão de pesquisa é formulada.

O lado direito do V ilustra os elementos metodológicos da pesquisa, registros, transformações de registros em dados e asserções de conhecimento e de valor resultantes da interpretação dos dados.

O lado esquerdo é conceitual, descrevendo conceitos, princípios, teorias e filosofias que guiam a formulação da questão, o planejamento do evento e as atividades do lado direito.

Existe uma contínua interação entre os componentes de ambos os lados, ajudando a clarificar e integrar a estrutura do conhecimento.

Gowin

Como utilizar o V de Gowin para estruturar sua pesquisa

Originalmente, V de Gowin é utilizado para “desempacotar” conhecimentos já produzidos.

Ou seja, materializados na forma de artigos, livros, teses ou qualquer obra escrita que apresente resultados de pesquisa.

Para utilizar o V para uma projeção daquilo que será a pesquisa, o problema ou evento abordado, alguns elementos originais precisam ser adaptados.

Iniciando pelo lado do domínio conceitual ou o lado do pensar a pesquisa, pode-se caracterizar esse procedimento como análogo ao método hipotético-dedutivo.

Esse lado representa toda a postura filosófica e teórica assumida pelo pesquisador.

Na qual ele se baseia para observar o mundo ao seu redor.

A partir daí, através da metodologia científica escolhida, representada pelo lado do domínio metodológico, chega-se às respostas da questão básica para verificar ou não as predições feitas inicialmente.

No entanto, quando a investigação é pensada a partir do lado do domínio metodológico ou lado do fazer a pesquisa, pode-se caracterizar esse procedimento como análogo ao método indutivo.

Nesta perspectiva, as observações são registradas, transformadas e interpretadas gerando asserções de conhecimento.

A partir dessas, percorre-se o caminho inverso na buscar de uma explicação geral que possa ser o ponto de partida para a construção do lado do domínio conceitual, com a elaboração de conceitos, princípios e teorias.

Questão(ões)-foco

Na acepção original dize(m) respeito à(s) questão(ões) básica(s) de pesquisa.

Identifica(m) o fenômeno de interesse informando o quê em essência foi estudado.

Questões de pesquisa são a motivação para a realização da pesquisa.

São importantes para o pesquisador estar consciente das mesmas na concepção do projeto.

E para a objetividade de seu trabalho.

  • Filosofia(s)

Consciente ou não, o pesquisador partilha de uma filosofia que motiva suas práticas enquanto pesquisador.

Apesar de não aparecer como exigência na concepção de um projeto, é importante conhecer quais as filosofias subjacentes à escolha do tema de pesquisa.

Bem como à abordagem dada à questão.

  • Teorias, princípios e conceitos

Conceitos, princípios e teorias estão intrinsecamente ligados.

Os conceitos são elementos essenciais, dos quais emergem princípios e teorias utilizadas como referencial teórico na concepção de um projeto.

  • Eventos/Objetos

Trata-se do problema identificado.

Um aspecto da realidade sobre o qual o pesquisador lança seu olhar e a respeito do qual levanta questões.

Num projeto, além da explicitação do problema, trata-se do recorte analítico, tanto espacial quanto temporal.

  • Registros

São as observações feitas sobre o problema.

Tais observações podem ser dados de natureza quantitativa ou qualitativa.

É todo o conjunto de informações extraídas.

Ou que se pretende extrair sobre o problema ou evento, ainda em estado bruto, carente de tratamento.

  • Transformações

Trata-se do tipo de tratamento a ser dado às informações coletadas (registros).

Por exemplo, considerando-se a coleta de dados estatísticos, pode-se realizar a tabulação e confecção de gráficos.

Ou ainda, a elaboração de mapas e a sobreposição de níveis de informações obtidas na análise de cartas topográficas.

Se você consegue preencher o V com sua pesquisa o argumento dela está bem coerente.

Para quem quiser mais a respeito, recomendo este livro.

By | 2017-10-19T21:44:07+00:00 19.10.17|0 Comentários

Sobre o Autor:

Graduada em Ciências Biológicas (licenciatura) pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais, Mestre em Ciências (ênfase Ensino de Biologia) pela Universidade de São Paulo. Trabalha com biologia geral, com ênfase em estratégicas didáticas e linguagem.

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