Metodologias ativas: sobre o que estamos falando?

As metodologias ativas se referem a estratégias de ensino que estimulam o aluno a ter maior autonomia no seu processo de aprendizado.

O aluno desenvolve conexões entre novos conteúdos e teorias antigas.

Mas estimular a autonomia também não é construtivismo?

Aprender realizando operações mentais entre novos e velhos conteúdos não é aprendizagem significativa?

Afinal em que teorias se apoia as metodologias ativas?

Não sabe?

Trazemos as principais aqui.

Contribuições do interacionismo

metodologias ativas

O interacionismo deixa de ver o aluno como um ser passivo.

Ou seja, o aluno é considerado enquanto sujeito ativo, ser pensante.

E para construir seus conhecimentos se apropria dos elementos fornecidos pelos professores, pelos  livros didáticos, pelas atividades realizadas em sala e por seus colegas.

De acordo com a visão interacionista, o professor é o facilitador do aprendizado.

O que na prática significa propiciar aos alunos o ambiente e os meios necessários para que eles construam seus conhecimentos.

Para tanto precisa ter ciência uma série de atos complexos.

Como oferecer  um ambiente afetivo na sala de aula que seja favorável ao aprendizado e dar espaço para que a voz  do estudante seja ouvida.

Além de sugerir estratégias de aprendizagem e recomendar leituras.

O professor que adota essa concepção de aprendizagem passa a ser corresponsável pelo aprendizado do aluno, que é o principal responsável por esse processo.

A adoção da visão  interacionista implica que o professor entenda a aula como um espaço no qual a voz do aluno deve  ser ouvida para que ele possa constituir-se como sujeito da sua aprendizagem.

Isso conduz o aluno à  formação de uma consciência crítica, que o professor precisa fomentar.

As principais personalidades dessa corrente teórica são Jean Piaget, que desenvolveu um olhar sobre  as etapas do desenvolvimento cognitivo.

E Lev Vygotsky, que concebeu uma perspectiva mais social ao interativismo.

Interessa, aqui, analisar um pouco mais a fundo esta última perspectiva, que não leva em conta indivíduo isoladamente, nem o contexto isoladamente, mas na interação desses elementos.

Para Vygotsky, os processos  mentais superiores do indivíduo têm origem em processos sociais.

É por  meio da interação social, isto é, no contato com os pais, os avós, com outras crianças, com professores, por exemplo, que o  sujeito irá apropriar-se e internalizar os instrumentos e os signos e, consequentemente, desenvolve-se cognitivamente.

A interação social é fundamental para o desenvolvimento cognitivo do  indivíduo.

Por provocar constantemente novas aprendizagens a partir da solução de problemas sob a orientação ou colaboração de crianças ou adultos mais experientes.

Vygotsky considera que a aprendizagem ocorre dentro da zona de desenvolvimento proximal.

Que é a distância entre o nível de desenvolvimento cognitivo real do indivíduo (capacidade de resolver problemas independentemente) e  o nível de desenvolvimento potencial (capacidade de resolução de problemas sob orientação de um  adulto).

Assim, o professor deve levar em conta o conhecimento real da criança.

E, a partir disso, provocar novas aprendizagens.

As quais, quando tornarem-se conhecimento real, novamente propulsionarão outras aprendizagens.

A aprendizagem por interação social é o ponto-chave da abordagem de Vygotsky, e também aspecto esse fundamental em práticas pedagógicas desenvolvidas à luz do método ativo.

Aprendizagem pela experiência Dewey

A pedagogia de John Dewey também vai ao encontro das metodologias ativas de ensino.

O principal  ponto de encontro dessas abordagens diz respeito a não haver separação entre vida e educação.

Os alunos não estão sendo preparados para a vida quando estão na escola e estão de fato “vivendo” quando não estão em ambiente escolar.

Na escola, já se está experienciando situações que fazem parte da vida do aluno, e vice-versa.

A educação torna-se, desse modo, uma contínua reconstrução de experiência.

Suas ideias já apontavam para que a escola proporcione momentos de aprendizagem que façam sentido  para o aluno.

Proporcionando assim experiências que sejam idênticas às condições da vida do aluno.

Para  tanto, os conteúdos devem abarcar o contexto do estudante, para que este possa refletir sobre ele.

Eis outro ponto importante de convergência com as metodologias ativas de ensino.

O ato de aprender se realiza mais adequadamente quando é  transformado em uma ocupação especial e distinta.

A aquisição isolada do saber intelectual,  tentando muitas vezes a impedir o sentido social que só a participação em uma atividade de  interesse comum pode dar, – deixa de ser educativa, contradizendo o seu próprio fim.

O que é  aprendido, sendo aprendido fora do lugar real que tem na vida, perde com isso o seu sentido e o seu valor.

Com isso, é permitido ao estudante compreender os objetos, os acontecimentos e os atos do seu contexto social, habilitando-os para uma participação ativa nas atividades.

Dewey define cinco condições para uma aprendizagem que integra diretamente a vida.

Não se  pretende minuciar cada uma delas, contudo, é pertinente mencioná-las a fim de reconhecer uma  aproximação com o método ativo:

  • Só se aprende o que se pratica.
  • Mas não basta praticar, é preciso  haver reconstrução consciente da experiência.
  • Aprende-se por associação.
  • Não se aprende nunca uma coisa só.
  • Toda aprendizagem deve ser integrada à vida.

Metodologias ativas favorecendo a aprendizagem significativa

A dicotomia da aprendizagem significativa e mecânica de Ausubel menciona que, na primeira, a nova informação é relacionada de maneira substantiva e não arbitrária a um aspecto relevante da estrutura cognitiva.

Ao passo que, na aprendizagem mecânica, a nova  informação não interage com aquela já existente na estrutura cognitiva.

Um aluno que, para realizar uma prova avaliativa, decora fórmulas, macetes, leis e ao término da avaliação, esquece tudo, está submetido à aprendizagem mecânica.

A corrente teórica ausubeliana também trata das condições para a ocorrência da aprendizagem  significativa.

A não arbitrariedade do material, a subjetividade e a disponibilidade para a aprendizagem.

Independentemente do quão potencialmente significativo seja o material a ser aprendido, se a  intenção do aprendiz for simplesmente a de memorizá-lo, arbitrária e literalmente, tanto o processo de aprendizagem como seu produto serão mecânicos (ou automáticos).

De maneira recíproca, independentemente de quão disposto para aprender estiver o indivíduo, nem o processo nem o produto de aprendizagem são significativos, se o material não for potencialmente significativo.

Assim, para que a aprendizagem seja significativa, o docente precisa levar em conta o conhecimento  prévio do aluno.

Além da potencialidade do material e a disposição do aprendiz em aprender.

Daí que se  configura a aproximação com o método ativo.

Metodologias ativas na perspectiva freiriana

Paulo Freire foi um dos pioneiros a problematizar os desafios concretos que impulsionaram a  articulação de movimentos populares em direção à transformação das realidades sociais opressoras.

Para o educador, um dos grandes problemas da educação paira no fato de os alunos serem estimulados a pensarem autonomamente.

O professor tem o papel de assegurar um ambiente dentro do qual os alunos possam reconhecer e refletir sobre suas  próprias ideias.

E aceitar que outras pessoas expressem pontos de vista diferentes dos seus, mas  igualmente válidos.

E possam avaliar a utilidade dessas ideias em comparação com as teorias apresentadas pelo professor.

Desenvolver o respeito pelos outros e a capacidade de  dialogar é um dos aspectos fundamentais do pensamento Freireano.

Ressalta-se a relevância de promover discussões em sala de aula.

De forma que o  aluno possa praticar o exercício de formular uma opinião sobre determinado assunto, ouvir outras  opiniões, refletir sobre elas e argumentar de forma cortês.

Esse movimento propicia um saudável conflito cognitivo no aluno.

E, além disso, provoca o desenvolvimento da atitude  crítica.

Que transcende os muros da escola, alcançando a atuação daquele aluno enquanto sujeito ativo da sociedade.

Para tanto, é necessário transcender o modelo tradicional de ensino, pautado numa aprendizagem mecânica e numa postura passiva do estudante.

A memorização mecânica do perfil do objeto não é aprendizado verdadeiro do objeto ou do conteúdo.

Se preparado para realizar uma leitura crítica da realidade, o aluno irá entender que aquilo que é  visto, noticiado, ou apresentado como uma verdade única pode ser apenas uma forma particular de  olhar para determinado aspecto.

Contudo, o sujeito que não tiver sido preparado para tal, passa a  receber a informação como verdade absoluta, conformando-se naturalmente.

Atitudes como oportunizar a escuta aos  estudantes, valorizar suas opiniões, exercitar a empatia, responder aos questionamentos,  encorajá-los, dentre outras, configuram pontos de encontro entre as ideias de Freire e a abordagem  pautada pelo método ativo.

By | 2017-11-17T19:33:01+00:00 17.11.17|0 Comentários

Sobre o Autor:

Graduada em Ciências Biológicas (licenciatura) pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais, Mestre em Ciências (ênfase Ensino de Biologia) pela Universidade de São Paulo. Trabalha com biologia geral, com ênfase em estratégicas didáticas e linguagem.

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