Você já ouviu falar em educação midiática?

A educação midiática pode ser entendida como campo de estudo e prática pedagógica que busca desenvolver habilidades para compreender, analisar, criar e interagir criticamente com os diversos tipos de mídia (digital, impressa, audiovisual etc.).

E tem como objetivo principal formar cidadãos autônomos, capazes de utilizar as tecnologias informativas de modo ético, crítico e responsável.

Assim, a escola, como espaço de formação cidadã, tem um papel central no desenvolvimento de competências midiáticas e no enfrentamento da desinformação.

Em um cenário de sobrecarga informativa e de riscos associados a notícias falsas, memes manipulativos e discursos de ódio, é necessário que a educação formal integre estratégias práticas e reflexivas para preparar estudantes para a vida digital.

Mas como a escola pode discutir educação midiática?

Integração Curricular Transversal

A educação midiática não deve ser tratada como um conteúdo isolado, mas como uma habilidade transversal.

Um exemplo é a articulação de disciplinas como Língua Portuguesa, História, Ciências e até Matemática.

Assim, a língua portuguesa pode trabalhar a estrutura de textos jornalísticos e compará-los com posts de redes sociais, identificando diferenças entre opinião, fato e sensacionalismo.

Enquanto que história pode debater como narrativas falsas ou revisionistas podem distorcer eventos históricos.

Como por exemplo a negação do Holocausto ou da ditadura militar.

E ciências discute a desinformação sobre vacinas ou mudanças climáticas, ensinando a buscar fontes científicas confiáveis, como artigos revisados por pares.

Exemplo prático

Uma aula sobre fake news na pandemia pode envolver a análise de uma corrente de WhatsApp que afirma que a vacina altera o DNA.

Os alunos pesquisam em sites como PubMed ou SciELO para verificar evidências científicas e aprendem a identificar autores qualificados.

Análise Crítica de Fontes e Conteúdos

Ensinar estudantes a “ler” além do texto, questionando a origem e a intenção das informações.

Por exemplo, realizar a atividade “Quem está por trás?”

O qual é selecionado uma notícia viral e investigado quem a produziu.

Os alunos verificam se o site tem transparência (endereço físico, equipe identificada), se há patrocínios suspeitos ou se reproduz conteúdo de fake farms (fábricas de notícias falsas).

Ou ainda, outra atividade, “detetives da informação”, onde os alunos criam um mural de notícias duvidosas coletadas em diversos meios de comunicação.

A turma debate: Qual a emoção que essa manchete provoca? Quem ganha se você acreditar nisso?

Por exemplo, ao receber um vídeo no TikTok que afirma “o aquecimento global é uma mentira”, os alunos usam ferramentas como Google Reverse Image Search para rastrear a origem das imagens e sites como Climate Feedback para confrontar os argumentos com dados científicos.

Práticas de Verificação de Fatos (Fact-Checking)

Incluir exercícios de checagem como parte da rotina pedagógica.

Ensinar passos simples aos alunos como por exemplo, pausar antes de compartilhar, procurar a fonte original (se houver estudo citado), comparar com veículos de credibilidade (BBC, Agência Pública, etc) e utilizar ferramentas de checagem como FactCheck.org ou Aos Fatos.

Um exemplo de atividade é um mapa viral que mostra “o Brasil como maior desmatador do mundo”.

Os alunos precisam então cruzar dados com relatórios do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)Global Forest Watch, discutindo como gráficos podem ser manipulados.

Projetos Interdisciplinares e Criação de Mídia

Ao produzir conteúdo midiático, os estudantes compreendem os mecanismos por trás da informação, desenvolvendo senso crítico.

Um exemplo é trabalhar com formato de podcast, muito popular entre os alunos.

Grupos de alunos criam episódios desmontando mitos comuns, como por exemplo “A Terra é plana”, entrevistando especialistas e citando fontes confiáveis.

Outro exemplo é os alunos virarem “repórteres” da comunidade e criarem um blog de checagem escolar, onde verificam boatos locais, por exemplo “A prefeitura vai fechar a escola X”, publicando respostas com base em investigações.

Ou ainda na aula de artes, os alunos criam memes que satirizam técnicas de desinformação, como uso de dados truncados ou apelos emocionais.

A atividade gera discussão sobre como a ironia pode viralizar tanto quanto as próprias fake news.

Diálogo Sobre Algoritmos e Bolhas Digitais

É crucial explicar como as redes sociais funcionam, mostrando que o que vemos online é filtrado por interesses comerciais e algoritmos.

Uma forma de fazer isso, é simulando um feed de notícias.

Os alunos recebem perfis fictícios (ex.: “conservador”, “ambientalista”) e veem como o algoritmo prioriza conteúdos polarizantes.

Outra forma é fazer um debate refletindo sobre como os cliques e compartilhamentos alimentam a recomendação de notícias falsas.

Além disso, na aula de Matemática também pode incluir a análise de gráficos de engajamento, mostrando como posts sensacionalistas geram mais visualizações, mesmo que falsos.

Espaço para Debate de Conflitos Éticos

A desinformação frequentemente explora temas sensíveis (política, religião, gênero).

A escola deve ser um ambiente seguro para discutir esses temas sem polarização.

Assim, é importante mediar conversas sobre notícias que dividiram a turma, como discursos de ódio contra minorias.

Também pode ser feito uma simulação de discussão, onde alguns alunos defendem fake news e outros contra-argumentam com fatos.

Outra possibilidade de atividade, é os alunos analisarem prints de redes sociais, identificando estratégias de manipulação (ex.: uso de estatísticas falsas) e construírem coletivamente respostas embasadas.

Desafios

Implementar a educação midiática exige superar obstáculos como a resistência de alunos acostumados ao compartilhamento impulsivo e a falta de formação docente.

Para isso, é essencial capacitar professores em cursos sobre desinformação e ferramentas digitais; incluir famílias em workshops, já que muitos repassam fake news sem malícia e atualizar constantemente as estratégias, acompanhando novas táticas de manipulação (ex.: deepfakes).

A escola não apenas ensina a ler o mundo, mas a ler as entrelinhas do mundo digital.

Ao transformar estudantes em críticos ativos da mídia, formamos cidadãos capazes de exigir transparência, defender a verdade e, acima de tudo, compreender que cada compartilhamento é um ato político.

Como diria Paulo Freire, “a educação não muda o mundo, muda as pessoas que mudarão o mundo”.

Nesse sentido, a educação midiática é uma semente para uma sociedade mais justa e informada.

E você? O que pensa a respeito?