Recentemente a privatização de escolas públicas gerou mobilizações e críticas em meio aos leilões de concessão.

Mas você sabe do que se trata?

O projeto “Novas Escolas”, implementado pelo governo de São Paulo, prevê a construção e modernização de 33 escolas estaduais via Parceria Público-Privada (PPP), com investimento de R$ 2,1 bilhões e concessão administrativa de 25 anos a empresas privadas.

Além da construção, as concessionárias vencedoras dos leilões ficarão responsáveis pela gestão e operação das estruturas das unidades.

A gestão pedagógica permanece com a Secretaria da Educação do Estado (Seduc-SP).

Assim, a iniciativa prevê a reorganização da rede estadual de ensino, com medidas como a fusão de escolas, ampliação do número de alunos por turma, redução de unidades escolares e alterações na grade curricular.

Embora publicamente tenha se discutido como privatização das escolas públicas, a parceria público privada (PPP) é um pouco diferente da privatização.

É um contrato de longo prazo entre governo e empresa privada para financiar, construir e operar projetos de interesse público, com repartição de riscos.

Mas a propriedade/posse continua sendo do Estado, o qual faz pagamentos periódicos a empresa privada e caso dê problemas ou errado o Estado é também responsável.

Parcerias Público-Privadas: Eficiência ou Precarização?

Projetos como o “Novas Escolas” em São Paulo ilustram como as PPPs são vendidas como soluções para a “modernização” e melhorias da educação.

No entanto, a terceirização de serviços não pedagógicos á empresas privadas, com contratos de até 25 anos, transfere bilhões de recursos públicos para o setor privado.

E como toda empresa, o objetivo é o lucro!

O que leva a cortes de custos em infraestrutura, salários e materiais.

A suposta “eficiência” mascara a precarização: escolas públicas passam a operar com lógica empresarial, onde a qualidade é substituída por métricas de produtividade.

A fusão de escolas pode levar à demissão de funcionários terceirizados (como merendeiras e vigilantes), sobrecarregando professores com tarefas administrativas.

Para a comunidade acadêmica, a lógica de “enxugamento” ignora décadas de subfinanciamento crônico da educação pública, que demanda investimento em infraestrutura, tecnologia e formação docente — não em redução de custos.

Modelo pedagógico questionável

O projeto inclui a adoção de um currículo semestral e disciplinas optativas, inspirado em modelos de ensino médio técnico.

Contudo, sem consulta a professores ou adaptação à realidade das escolas, há risco de aprofundar desigualdades.

Por exemplo, alunos de periferias podem ter menos opções de disciplinas eletivas devido à falta de recursos, enquanto escolas em áreas ricas teriam mais estrutura.

Além disso, a semestralização pode prejudicar alunos com dificuldades de aprendizagem, que teriam menos tempo para assimilar conteúdos.

A privatização não ocorre isoladamente.

Organizações como o Banco Mundial, a OCDE e conglomerados empresariais (Instituto Ayrton Senna, Fundação Lemann) atuam na definição de políticas educacionais.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, foi criticada por incorporar habilidades socioemocionais e empreendedorismo, alinhadas a interesses de mercado, em detrimento de uma formação crítica e plural.

Think tanks como o Ceipe/FGV, financiados por institutos privados, influenciam secretarias de educação, promovendo modelos gerenciais que desconsideram realidades locais e reforçam a padronização do ensino.

Assim, a privatização endógena — como a compra de pacotes pedagógicos de institutos privados — reduz a autonomia docente.

Professores podem ser pressionados a seguir scripts de aula pré-definidos, monitorados por sistemas como o SIASI (Instituto Ayrton Senna), que priorizam resultados em avaliações padronizadas.

Paralelamente, documentos como Um ajuste justo (Banco Mundial, 2017) culpabilizam os professores pela “ineficiência” da educação, defendendo cortes de investimentos e contratações precárias.

A formação docente, majoritariamente oferecida por instituições privadas e EAD, é alinhada a essa lógica, desvalorizando a profissão e fragilizando a construção de projetos pedagógicos críticos.

Impactos  da privatização no processo de ensino aprendizagem

A super lotação em sala de aula já é um problema antigo, e pode ser agravado com a ampliação do número de alunos por turma.

Isso dificulta a personalização do ensino, limita a interação professor-aluno e aumenta a carga de trabalho docente, o que pode elevar índices de evasão e repetência.

Outro ponto é a proposta de fundir escolas e desativar unidades em regiões periféricas, o que obrigaria milhares de estudantes a se deslocarem para instituições mais distantes.

Além de dificultar o acesso, as escolas são espaços de identidade comunitária; seu fechamento pode fragilizar vínculos sociais locais.

Inclusive um dos pontos mais criticados é justamente a ausência de participação democrática na formulação do projeto.

Sindicatos, gestores escolares e estudantes foram excluídos das discussões, violando princípios da gestão democrática previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

Experiências internacionais mostram que reformas educacionais bem-sucedidas dependem do engajamento de todos os atores envolvidos, garantindo que as mudanças sejam contextualizadas e legitimadas.

Riscos de privatização e terceirização

Há suspeitas de que o projeto abra caminho para a terceirização de serviços educacionais, como a contratação de plataformas privadas de ensino a distância.

Para críticos, isso representaria um avanço da lógica mercadológica na educação pública, transferindo recursos estatais para empresas e enfraquecendo o papel do Estado como garantidor de direitos.

Resistência e alternativas: Em defesa da Escola Pública

Movimentos como as ocupações estudantis contra a reorganização escolar em São Paulo (2016) demonstram que a resistência é possível.

A defesa da gestão democrática, do financiamento público e da valorização docente é urgente.

Políticas devem priorizar:

  • Transparência nas parcerias público-privadas, com controle social sobre contratos e gastos.
  • Fortalecimento da formação crítica de professores, vinculada às realidades locais.
  • Rejeição a modelos pedagógicos alinhados ao mercado, em favor de currículos que promovam cidadania e pensamento crítico.

Embora o governo defenda o Projeto Novas Escolas como modernização, as evidências sugerem que ele prioriza a racionalização de gastos em detrimento da qualidade e da inclusão.

Privatizar a educação é privatizar o futuro.

Quando escolas públicas são geridas por interesses mercantis ou controladas por forças autoritárias, perdem-se espaços essenciais para a construção de uma sociedade justa.

A educação não é um serviço a ser terceirizado, mas um direito a ser garantido pelo Estado, com participação democrática e compromisso com a equidade.

Enfrentar a privatização exige mais que crítica: exige mobilização por um projeto educacional que valorize a vida, a diversidade e a liberdade — antídotos contra a barbárie que avança.

Reformas educacionais exigem diagnóstico preciso dos problemas (como infraestrutura deficiente e formação docente insuficiente) e investimentos sustentáveis, não medidas paliativas.

E você, o que pensa a respeito? Compartilhe sua opinião.